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Povo indígena que resistiu à seca vê-se diante de novo desafio: sobreviver ao coronavírus em 2021

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Aldeia Fulni-ô se sustenta com venda de produtos típicos, com crise na saúde, fonte de renda minguou 

O povo indígena da etnia Fulni-ô tomou uma difícil decisão há algumas décadas: comercializar a arte, os produtos medicinais e abrir a aldeia para os brancos. O motivo para isso foi a seca que tornou impossível que a aldeia sobrevivesse apenas com a caça, pesca e plantio. Ironicamente, Fulni-ô significa à beira do rio e está localizado em Águas Belas, interior de Pernambuco. Mas a comunidade, com mais de seis mil indígenas, fica no Polígono da Seca.

Há cerca de 20 anos, eles começaram a percorrer o Brasil com artesanato e medicamentos indígenas, além de realizarem alguns trabalhos espirituais. Porém, em 2020 os Fulni-ô encontram-se com outro desafio: sobreviver à pandemia do Coronavírus. 

Com as restrições sanitárias, eles tiveram que suspender as viagens e fecharam a entrada na aldeia. Além disso, perderam alguns membros Fulni-ô para a Covid-19. Dessa vez, o que secou foi a fonte de renda, o que complicou a manutenção da comunidade. 

Toé, um dos membros Fulni-ô, afirma que é a solidariedade que tem contribuído com o sustento na aldeia. Doações têm chegado e algumas iniciativas, como vaquinhas on-line, têm sido realizadas com o objetivo de ajudar os indígenas a sobreviverem à crise. 

Toê e Dhãn em vivência de pintura corporal Fulni-ô, em Alto Paraíso de Goiás
povo indigena fulni-ô
Toê e Du em vivência de pintura corporal Fulni-ô, em Alto Paraíso de Goiás

 

Peregrina desenvolve projeto para fortalecer negócios e cultura de povos originários 

Fundadora da Peregrina, Maruscka Grassano é parceira dos Fulni-ô e vendia parte do artesanato e produtos medicinais. Ela é nômade digital e tem uma loja no Instagram chamada Peregrina. O foco é a venda de produtos étnicos, há sete anos.

Com a chegada da Covid-19, ela também viu as possibilidades que tinha minguarem.  A nômade, que garimpava os produtos mundo afora, precisou se isolar no home-office. Mas foi neste ambiente que surgiu uma ideia: ter uma plataforma on-line para fortalecer comunidades, inclusive as indígenas

Para isso, ela aposta no que tem amenizado a crise na aldeia Fulni ô, a solidariedade. Deu certo, ela arrecadou cerca de R$4000,00 em uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Benfeitoria para desenvolver um marketplace, um e-commerce para que artesãos, artistas e povos de todo mundo possam vender seus produtos sem saírem da comunidade.   

“A ideia é que quem tenha condições custeie a presença de quem não possa pagar. É uma forma de conseguir mais clientes e de apoiar um negócio de impacto social. Mais do que um ambiente para comercialização de artesanato, roupas e outros, quero capacitar as comunidades para que elas consigam mais resultados com a venda de seus produtos. 

Dessa forma, o valor também vai ajudar nos custos dessas formações. O objetivo não é usar a plataforma para escalonar o negócio, mas compartilhar possibilidades, trocas significativas, compras com propósito”, explicou Maruscka. 

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Maruscka e Toê na praia do Leme, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Maruscka o acompanhava em cerimônias da Jurema, típica do Povo Fulni-ô
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Cerimônia da Jurema no Tenetehara, em Juiz de Fora (MG). Foto: @deborahhsilva
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Toê e Carol, após a cerimônia da Jurema, no Tenetehara, em Juiz de Fora (MG). Foto: Deborah Silva.

Mais do que simples produtos

Quem estiver no marketplace da Peregrina leva mais que produtos para casa. No caso de quem adquire um produto dos Fulni-ô, por exemplo, a pessoa terá amuletos de proteção.

De acordo com o indígena Toé, quando a aldeia decidiu levar o artesanato a outros povos, foi feito um trabalho espiritual para que pudessem sair da comunidade. O artesanato, a produção medicinal e outros são fruto de saberes ancestrais sagrados. Muita coisa, ele garante, ainda não pode sair da aldeia, mas tudo que chega aos não-indígenas é feito de forma muito especial. 

“Quando você está com uma pulseira nossa ou um cocar, por exemplo, tem a proteção dos deuses da natureza”, explica. 

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