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Indígenas LGBTQIA+ retratados no projeto ORIGEM

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A realidade de indígenas LGBTQIA+ é retratada no projeto ORIGEM, que resgata a cultura de seus antepassados, cujas sexualidades foram exterminadas pelos europeus.

Indígenas LGBTQIA+ viviam pacificamente em suas comunidades antes da colonização. As comunidades originárias manifestavam livremente suas sexualidades antes da chegada dos colonizadores portugueses, que vieram acompanhados pelo preconceito moral da Igreja Católica. A tese é resultado de um estudo conduzido pelo antropólogo Estevão Rafael Fernandes. 

(veja nossos artesanatos indígenas aqui).

Com a importação do conceito arbitrário de “pecado”, foram-lhes tirado, para além de todas as suas riquezas materiais  sendo a maior delas, suas vidas  o direito de expressar suas identidades sexuais e de gênero.

Há algum tempo, lideranças indígenas LGBTQIA+ vêm se organizando para resgatar esse direito, em um movimento que enfrenta dois grandes estigmas na nossa sociedade: ser indígena e a expressão livre dos corpos. Neste sentido, surge o projeto ORIGEM.

Projeto ORIGEM e a realidade de indígenas LGBTQIA+ 

Idealizado por Antônio Vittal Neto Pankararu (@heytonninho) e Laryssa Machada (@laryssamachada), ORIGEM é um projeto visual que celebra a identidade e a realidade vivida por indígenas LGBTQIA+ de povos dos estados de Pernambuco e Bahia. 

O projeto é composto por uma combinação entre fotografia e desenho digital, de modo a conectar essas experiências e a ciência natural das plantas medicinais utilizadas pelos povos originários. Nesse sentido, metaforicamente, os traços representam, ao mesmo tempo, um tratamento espiritual de cura a essas identidades feridas e a luta pelo direito de ser quem são.

Indígenas LGBTQIA+ no projeto ORIGEM

Na verdade, se trata do resgate de uma liberdade que há muito tempo lhes foi tirada. Como aborda o projeto, o primeiro caso registrado de homofobia no Brasil é datado de 1614. Na época, um indígena tupinambá (designado de “tibira”, termo tupi associado aos “dissidentes” sexuais, aos olhos dos ocidentais) foi executado com um tiro de canhão.

Antes disso, entretanto, já havia relatos da liberdade sexual dos povos originários nas cartas enviadas à Coroa Portuguesa pelos colonizadores. Liberdade essa que lhes fora tolhida de seus imaginários, por meio da catequização, e através de rituais perversos de purificação.

Significado de LBTQIA+

Embora o Brasil siga no topo da lista dos países que mais matam pessoas LGBTQIA+, cada vez mais, as pessoas se sentem livres para expressar quem são. Essa diversidade e o respeito a ela é, inclusive, o aspecto mais importante da sigla que representa o movimento organizado das chamadas “minorias sexuais”.

Somente nos anos 2000, o termo passou por diversas mudanças. De GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) para LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais); então, de LGBT para LGBTQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Queers) e, agora, LGBTQIA+ que passou a ser a mais adotada entre os membros do movimento para ampliar a inclusão a outras identidades.

Para compreender o movimento e se aproximar dessa importante luta por direitos, é preciso conhecer as identidades que compõem essa resistência. Confira.

Lésbicas: mulheres que sentem atração sexual ou afetiva por outras mulheres.

Gays: homens que se sentem atraídos sexualmente ou de forma afetiva por outros homens.

Bissexuais: pessoas que sentem atração sexual ou afetiva por ambos os gêneros.

Transexuais: pessoas que não se identificam com seu gênero biológico. No grupo também estão as travestis, que são pessoas designadas com um gênero ao nascer, mas que vivenciam um papel de gênero oposto e podem se reconhecer como membros de um terceiro gênero ou como pessoa agênera.

Queers: pessoas que transitam entre as noções de gênero, se opondo à heteronormatividade.  A teoria Queer defende que tanto a orientação sexual quanto a identidade de gênero são uma construção social.

Intersexuais: pessoas cujas características biológicas e sociais as colocam entre os dois espectros de gênero, negando o binarismo biológico e social.

Assexuais: pessoas que, em diferentes níveis, não sentem atração sexual por outras pessoas, independentemente do gênero. Há quem não sinta qualquer tipo de atração e quem não vê as relações sexuais como uma prioridade. 

+: o sinal é utilizado para incluir outras sexualidades e identidades de gênero.

Todas essas letras reúnem milhões de identidades que, diariamente, lutam contra o preconceito que sofrem em casa, no mercado de trabalho e até mesmo por profissionais de saúde. Para muitas dessas pessoas, sair na rua já se configura como um ato de resistência. Devemos, pois, refletir sobre o estigma que constrange, humilha, machuca e, por fim, mata milhares de pessoas no Brasil. 

O estigma permanece nas comunidades indígenas

Segundo o livro “Gay Indians in Brazil: Untold stories of the colonization of indigenous sexualities”, resultado da tese de Estevão, o jesuíta Yves D’Évreux é quem descreve a execução da primeira vítima de homofobia registrada no país. 

Na carta, D’Évreux demonstra bem a perversidade dos brancos europeus. No documento, o devoto sanguinário justifica o assassinato como um “ritual de purificação” pela vítima ter cometido “o mais sujo dos pecados”.

O estigma que a Europa trouxe aos povos originários permanece. Para muitos indígenas, inclusive, o reconhecimento enquanto homossexual, bissexual, travesti ou transgênero vem acompanhado de um desencontro com sua própria identidade indígena. 

Antes, os indivíduos simplesmente eram o preconceito branco iniciou a categorização, o julgamento e o extermínio desses traços identitários, que já não são reconhecidos por muitos povos como parte de suas culturas.  

A chegada dos europeus alterou o modo de vida dos povos originários de forma inimaginável. Foram retiradas vidas, territórios, lideranças foram depostas; e, ao mesmo tempo, muita coisa foi incrustada em suas mentes. Sim! A homofobia veio com as caravelas.

Arte como forma de luta

Ainda hoje, muitos indígenas LGBTQIA+ precisam lutar, dentro de suas comunidades, por respeito e pela chance de manifestar suas identidades. Alguns povos assumiram o discurso branco-europeu de que gays, lésbicas, transgêneros e outras sexualidades não-binárias são essencialmente errados. Historicamente, contudo, não há relatos de preconceito com homossexuais entre indígenas e nem havia um termo para designar essas pessoas.

Ao mostrar a realidade de indígenas LGBTQIA+, o projeto ORIGEM resgata a cultura de seus antepassados, que celebravam a diversidade e o respeito às identidades de seus membros.

Graças a projetos que reivindicam a memória de seus povos e a mudança na História embranquecida, várias e vários indígenas têm se reconhecido enquanto LGBTQIA+. Você pode conferir algumas dessas experiências acessando o Projeto ORIGEM e seguindo seus idealizadores nas redes sociais. 

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