Caminho espiritual, desabamento e devoção

Adiei o quanto pude falar sobre prática espiritual. Não me considero apto e também não sabia se essa coisa tão pessoal tinha uma maneira de ser descrita por uma mente ainda tão embaçada. Falar sobre o início do caminho é falar sobre as crises que envolvem esse “começar a olhar pra dentro”, o impacto na vida cotidiana, amizades, trabalho, família etc. Não sei exatamente o tamanho total da revolução pessoal que isso implica. Provavelmente como você, sou o dito iniciante de um caminho que nunca foi trilhado antes. Cada um tem a experiência do encontro com o imaterial. Mas como qualquer quebra de paradigma causa uma sensação de crise – ou aquele questionamento chato daquela voz dentro da cabeça – pensei que o que tenho vivido e praticado possa ter alguma utilidade benéfica em ser compartilhado com outros estudantes/praticantes que por ventura venham a encontrar esse texto.

Encontrar ensinamentos que abram seus olhos para perceber a dita “realidade” de um ponto diferente  tem esse impacto transformador, gera uma sensação descrita pelo Guru Padmasambava como “a sensação de retornar ao lar depois de uma longa viagem”. É de fato um reencontro. Uma (re)familiarização com um tesouro que estava escondido debaixo do seu nariz. Sentimos que perdemos muito tempo com outras coisas e respiramos aliviadxs de ter encontrado enquanto ainda vivxs. Deste ponto começa uma grande desconstrução. Surgem as rachaduras em um palácio de ilusões, e uma estrutura valiosa de realidade começa a se mostrar presente em todos os aspectos da vida cotidiana. Nos descobrimos iogues da vida diária. Cada encontro com a dificuldade começa a ter um caráter de classe. Lições escondidas nas pessoas difíceis, no trabalho, nas obrigações. Percebemos que nossos amores, além da deliciosa bondade de sua dedicação a nos acompanhar na vida, são grandes mestres e mestras espirituais que nos desnudam de nossa fortaleza – nossas cascas tão frágeis que mantemos nos cobrindo como naqueles sonhos que estamos nus correndo pelas cidades. Ver como tudo é impermanente tem um poder de transformação imenso. O que cristalizávamos como “eu” se desfaz como uma geleira no mar. Já fomos tantas coisas, já morremos e renascemos tantas vezes – em uma única vida! – e continuamos sofrendo por defender, se apegar ou evitar o que não existe separado de nós. A natureza das coisas da existência condicionada desse mundo material de posses e desejos é o desabamento. Então porque não buscamos enxergar aquilo que nunca desaba? Aquele fio que seguiu por todas as identidades, por todas as fases dessa vida, contemplando silenciosamente a dança dos dias. Acho que essa ideia é libertadora. A imortalidade não ser da identidade é algo tão bom… Se não sou algo, sou tudo. Se não tomo algo, tudo me pertence. Se não controlo o destino das coisas, todas as coisas estão no seu devido lugar e ali é meu lugar de praticar o bem.

De repente a vida ganha essa preciosidade. Sentimos a dificuldade que é aspirar bondade e mudança e ao mesmo tempo contemplamos o paradoxo de querer um mundo melhor sabendo que esse mundo é feito do mesmo tecido dos sonhos. E nossa posição, nossa identidade, roupas, práticas, ideias, alimentação, fins de semana, amizades, contato com a família… tudo isso começa a se transformar. A sensação de urgência brota. Com ela, muitas vezes nossa clássica operação de cobrança sobre a meditação, sobre ser uma pessoa idealizadamente melhor.  Ah sim, essas ilusões da prática. Sempre presentes porque não percebemos que precisamos retirar coisas, não adicioná-las. Entendemos os benefícios de uma vida mais rica espiritualmente e passamos a aspirar que as pessoas que convivemos provem desse “retorno ao lar”, e temos que entender que cada um tem seu momento, sua prática, seu caminho. Cada um encontrará seu mestre interno e depois seu mestre externo se apresenta. Então vemos a devoção. Nos deparamos com a prática do amor ao Guru – seja quem for esse ser, de qualquer tradição que tenha revelado essa mensagem de amor e bondade (tão démodé nos tempos atuais).

Pessoalmente tive uma dificuldade que me incomodava muito em ver outras pessoas terem tanta devoção por outras pessoas. Não concebia outro humano ter a adoração de grupos de pessoas porque, especialmente no ocidente, aprendemos que jamais, a menos que com uma arma na cabeça, você deve se ajoelhar ou se curvar diante de outro. Aprendemos a dar uma super importância a essa identidade que apresentamos. Nosso país, nosso nome, nossa família e todos os seus problemas, nosso time e títulos acadêmicos. Percebi que no Guru está presente a porta de transcendência desse castelo de areia da identidade. O mestre ou mestra transcende o corpo. É a sustentação dos ensinamentos, e com olhos livres vemos ensinamentos em todos os lugares. Logo os mestres estão em todos os lugares, como o Sol que nasce sem discriminar sobre quem deitará sua luz. No fim, desenvolver a devoção é aprender a se reconciliar com toda a existência. A devoção ultrapassa a barreira de tradição, de estética, de identidade, de pertencimento a grupos e permeia uma classe de amor que nossa vida utilitarista havia esquecido. O amor irrestrito à possibilidade. Um pulsar enérgico no peito quando nos encontramos com a sabedoria intrínseca.  Essa sabedoria que sempre esteve aqui. Em mim, em você, nas pessoas boas, e nas difíceis também. Em cada fenômeno que nos permite aprender.

Não penso que encontramos um caminho espiritual, afinal. Penso que começamos a construí-lo. É de grande mérito despertar na vida humana o olhar para o universo da consciência.

Diz-se que é tão raro ter uma vida preciosa como uma tartaruga que apenas a cada 200 anos sobe para respirar, e quando sobe, passa sua cabeça por uma única argola que flutua no oceano. Com tantas distrações e necessidades criadas, retomar a aspiração pelo amor, compaixão, bondade e simplicidade é raro.  É o tesouro mais precioso, porque dele toda sua vida presente adquire brilho, riqueza sem medidas. Uma vida que nunca será perdida.

No mais, entre os períodos bons e ruins da prática diária, o que define nosso caminho é o fio que liga as contas dos dias. Nos dias ruins não desanime porque passam. Nos dias bons não se orgulhe porque também passam. Assim entendemos que não há onde chegar, não há quem melhorar, o que defender, o que construir. Apenas ser.

 

Que este texto possa trazer benefícios.

Com amor e humildade,

Diego Navarro

 

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