Corra, Lola, Corra

Ao buscar algo, acabamos nos deparando com seu completo oposto.

A gente corre. Corre como nunca corremos antes. Corre pra dar o melhor de si. Corre pra ser melhor entre tantos. Corre pra realizar tudo que a gente sempre quis, ou pelo menos, acha que sempre quis. Corre para estudar, corre para trabalhar, corre para dormir, corre para encontrar os poucos amigos, corre para ir para academia, corre para correr, corre, corre, corre, corre… E no final de tudo isso resta apenas uma constatação: Falta tempo para correr mais!

Ouso arriscar dizer que, se você perguntar pra alguém qual foi a última vez em que ela parou por completo na vida, sem fazer absolutamente nada, sozinha consigo mesma, é provável que ela não saiba te responder. Afinal, não se para mais. Não se respira mais. Não se credita mais a importância do silêncio. Do breu. Da imensidão. Porque é esse vazio que nos faz perceber que somos nada.

Parece ser cada vez mais raro presenciar esses momentos em nossa rotina. Primeiro porque a vida tornou-se complexa demais, exigente demais, fez-se necessária demais. Há que se produzir muito no menor espaço de tempo possível – Ainda que a qualidade do que se produz não seja a melhor coisa. Segundo porque a gente simplesmente não quer, de verdade, passar pela solidão. E essa solidão é que mata a gente. Não é visto com bons olhos o ficar só, o estar só. A gente não tem mais familiaridade com quem somos.  Sabe quando você encontra um amigo que há tempos não via e se sentam juntos numa mesa de um restaurante e você simplesmente não sabe que assunto puxar? Pois então, às vezes pode acontecer quando estamos sós com a gente mesmo. E é por isso que corremos, sem nem saber para onde. Corremos de nós mesmos.

Nos transformamos em uma geração que não sabe esperar. Temos pressa. Queremos chegar no final da linha, sem passar pelo processo de se chegar até lá. Mal sabendo que na verdade é esse processo que importa. (É o famoso acabou de chegar e já quer sentar na janela). Talvez o desejo pra que tudo passe tão rápido assim seja apenas o reflexo de nossas frustrações, de nossas infelicidades cotidianas. A gente quer descansar, mas quando chega a hora do descanso é tudo o que menos fazemos. Inventamos um monte de distrações e de entretenimentos pra corrermos da solidão. Por que é tão inadmissível assim não se fazer nada no pouco tempo que nos resta para isso?

Talvez essa seja uma visão pessimista das relações que estabelecemos em sociedade, mas tenho pra mim que as pessoas têm se comprometido menos com a vida. Estão pouco interessadas com o viver e tudo o que isso implica.  Ocupa-se muito de nada. Constroem-se castelos irreais fincados em areia fina. Uma infinidade de “você tá sumido” e de “vamos marcar”. Um passar descompassado entre realidades imaginárias.

E a gente não tem sido preparado pra lidar com a essa ideia. Somos o tempo todo estimulados a pensar que somos mais que alguém ou alguma coisa, que a gente precisa se diferenciar. Mas quanto mais caímos nesse conto do vigário, mais enterrados ficamos. Percebem que sempre caímos no contraditório?! Ao buscar algo, acabamos nos deparando com seu completo oposto.  E assim a vida vai se seguindo… Um looping eterno de corre-corre. Quase um remake diário do filme Corra, Lola, Corra.

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