Nua pelas ruas

por Naiara Cremasco
Rio de Janeiro

Ser gente, às vezes, me entristece. Esses dias saí nua pelas ruas, completamente despida de roupas e pelos. Espelhos sempre me deixaram insegura, mas a minha imagem aos olhos alheios me deixa muito mais. Esses dias saí nua pelas ruas e tive a impressão de que todos me julgavam pelo olhar. Me senti inferior e quase vomitei sobre os pés de Carolina, que se aproximava.
“Como você se sente?” – ela me perguntou intrigada, beijando cada pedacinho do meu couro cabeludo.
Eu teria respondido que me sentia inapropriada, até notar seu olhar inocente e deslumbrado fixo em mim, como se suas pupilas brilhantes denunciassem o quanto ela me achara linda. Tão linda que eu passei a confiar nos olhos dela.
“Me sinto como uma loba, exceto o fato de que eu não sou. É como se o pelo que eu imaginava usar tivesse se derretido em minha pele e se tornado parte dela, apesar de não existir. Me sinto como toda mulher no mundo deveria se sentir independente das circunstâncias: linda”
Ela chorou.
E eu também.
Ser gente, às vezes, me entristece. Mas eu gosto de gente. Gente me enoja. Mas eu gosto, eu gosto mesmo de gente.
Carolina também.

 

 

Foto de capa: Arteide

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