Descobri que latejar era ser gente, não morrer

por Naiara Cremasco
Rio de Janeiro

Esses dias eu quase morri. Consegui ver o meu corpo todo partido em cacos através do espelho trincado refletindo a minha carne viva. Tinha pelos eriçados na superfície e sangrava. Eu não saberia dizer se doía porque a única coisa que me chamava a atenção era o meu coração exposto, vibrando pulsátil. Os meus olhos eram faíscas coloridas, cintilando no meio do caos do meu corpo despedaçado. Esses dias eu quase morri, e eu não saberia dizer se doía porque além do meu coração, alguma coisa que eu não entendia direito acontecia pelas minhas veias. Esses dias eu quase morri, e no meio de todo o horror da minha imagem fragmentada refletida no espelho trincado, eu tive um sonho que me salvou. Minha alma viajava brilhante e sem máscaras a procura de céu, nuvem, cor, ar, luz, flor, água, terra, pão, mato. Esses dias eu perdi alguns pedaços de mim, mas não morri. Sonhei que fazia parte de alguma coisa, com céu, nuvem, cor, ar, luz, flor, água, terra, pão, mato, alguma coisa. Descobri que latejar era ser gente, não morrer. E ser gente agora doía, ah, como doía! Esses dias eu quase morri, mas descobri que latejar era ser gente, e ser gente me dava uma esperança feliz que me salvava. Esses dias eu quase morri, mas meu coração ensanguentado continuou pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando pulsando

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