A Índia que me fez mulher

Sobre preconceito, indignação e libertação.

(Foto: Darren_black)

Foi preciso cruzar oceanos e mudar o fuso horário para sentir e dar o real valor a assuntos que, antes, eram corriqueiros pra mim. A valorização da mulher foi um desses. Confesso que a própria expressão ‘feminismo’ me passava uma ideia equivocada dessa luta e muitas ações nesse sentido me soavam como uma boa de uma ladainha. “Eu faço tudo o que um homem faz: ganho meu dinheiro, dirijo, uso as roupas que quero e sento no boteco pra tomar cerveja, do que essas mulheres estão reclamando?” – pensava. O bordão “não sabe de nada, inocente” nunca veio tanto a calhar.

Já cheguei na Índia sabendo que andar à noite sozinha nas ruas não era recomendável, devido aos incontáveis casos de estupro e outros abusos. Mas a primeira vez que realmente me indignei, me lembro bem, foi pegando carona com um colega de trabalho que, fazendo todo um interrogatório sobre a minha vida, “deu os parabéns” e chamou minha mãe de mulher decente porque ela não tinha se casado após o divórcio. Ah vá! Eu, que não perco um direito de resposta, fiquei sem palavras por um bom tempo. Como assim não temos o direito de escolher um novo parceiro com o fim do casamento? Bem vindos à Índia!

Não parou por aí. Sobre os abusos sexuais recorrentes no país, ouvi atenta – e estupefada: “Veja bem, Maruscka, se uma mulher se veste com dignidade, nada vai acontecer a ela. Mas se ela usa roupas curtas e mostra o corpo, essas pessoas vão se sentir no direito de fazerem alguma coisa”.

Então o problema é nosso? Sim. Quando o problema não é da mulher, o problema é a mulher. Por isso somos estupradas, vendidas, mortas e traídas. Ter um filho homem é muito mais auspicioso por essas bandas. E você que se coloque no seu devido lugar.

Se nascemos indianas, fomos criadas para o casamento. Afinal, o que é uma mulher sem um homem? Se somos estrangeiras, somos diversão passageira, porque vocês sabem, estrangeira “é tudo fácil”.

Conviver com amigos que abraçam nossa causa e lutam por nosso valor até consola um pouco, mas não evita sentir na pele o preconceito e foi aqui, pela primeira vez, que me senti alvo desse pensamento ignorante. Me senti gay, me senti negra, me senti com síndrome de down. me senti na pele de todas as pessoas que sofrem com a mente fechada, a falta de conhecimento e a estupidez humana. E no final das contas, me senti mulher, muito mais do que nunca.

A indignação fez florescer uma autoconfiança e um sentimento de liberdade inéditos para mim. Nunca antes na história desse e de qualquer outro país me senti tão dona do meu corpo e dos meus desejos. E não existe machistazinho ou recalcada de merda (porque mulher que julga outra por parâmetros sexuais não passa disso, alguém duvida?) que fará com que eu me sinta inferior por tomar decisões que só dizem respeito a mim. Se amanhã eu quiser ser prostituta, fazer um aborto ou até fazer amor com oito pessoas é isso o que vou fazer* porque tenho total direito de decidir por mim e pelo meu corpo que é propriedade minha e de ninguém mais.

O *asterisco é para os politicamente corretos de plantão. Existe uma diferença muito grande, por exemplo, em ser a favor do aborto e ser a favor da legalização do mesmo. A mesma ressalva serve para o sexo. A escolha é nossa e as consequências também. Então, antes de mais nada, consciência!

Usando saia bandagem ou saião, decote ou burca, valorizemo-nos! A gente vale é muito e não tem ouro que pague!

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4 comentários

  1. Nossa Maruskete, que texto lindo!
    Amei! Deu até pra sentir na pele a situação que você passou aí. Continue com esses textos maravilhosos, que além de maravilhosos são super informativos! Amei de coração. Parabéns!

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