Tempestade no deserto

Uma noite histórica de tempestade e fúria da natureza bem no meio do deserto. Eu estava lá!

Era pra ser mais uma noite turística, observando as estrelas e dormindo sob a imensidão do céu do deserto. Ao contrário disso, aquela noite foi uma espécie de privilégio um tanto quanto duvidoso: poder não só assistir, mas viver e sentir o que é estar no olho de uma tempestade em campo aberto, sem lugar seguro para se refugiar.

Sai ilesa da fúria, mas não da agressiva beleza que a natureza no impôs durante algumas horas. Chuva, vento, raios, trovões e a tempestade de areia, dolorosa para quem não tinha o corpo todo coberto, como eu, que vestia short e camiseta.

Nunca havia sentido tamanho respeito e temor pelas forças superiores. Mas não era medo propriamente dito, por algum motivo que não sei explicar. Talvez ele tenha sido abafado pelo fascínio que senti por poder presenciar o grandioso espetáculo que foi aquela noite.

Até hoje não contei pra minha mãe que fiquei no meio de uma tempestade no meio do deserto. Talvez ela me mate depois de ler esse post.

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Welcome to Jaisalmer!

Após 12 horas de viagem em um ônibus sujo, desconfortável e caindo aos pedaços, além de várias paradas em locais assombrosos na madrugada, chegamos, finalmente, ao deserto de Thar!

A recepção foi excelente! Por indicação de outros intercambistas, procuramos o Abu Safari. O próprio Abu foi nos buscar na rodoviária (?) e nos levou para sua Guest House, onde nos explicou os detalhes do safari, deu os valores etc. Achamos justo e resolvemos fechar com ele.

Safari no deserto

De carro, percorremos 15 Km até chegar ao local onde estariam os camelos. Eu e meus flatmates nos juntamos a mais três turistas – um casal australiano e uma japa. Subir e descer do camelo são as partes “difíceis”, quando ele dá um tranco. Me guiando, um garotinho que tinha 15, mas parecia ter 9 anos – um fofo, que sempre me respondia: “no english, mam” (mam de madame). Mas eu não desisto fácil e bati altos papos com ele. Ele no hindi e eu no inglês, por que não?

O almoço foi feito por nossos guias, ali mesmo na sombra de uma árvore: chapati (esse pão redondinho que eles costumam comer com quase tudo) e uns vegetais que não sei dizer. Spice, claro! A água era à temperatura ambiente e quando se trata de deserto, você pode imaginar… Mais quente que xixi! E jogue as mãos pro alto! Após o almoço, passamos por umas casinhas, nas quais fomos super bem recebidos pela criançada e pelos poucos moradores – dava pra contar numa mão.

A tempestade

Enfim, chegamos às dunas onde (achamos que) iríamos dormir. Eram cerca de 7 ou 8 horas da noite. Estávamos a 50 Km da fronteira com o Pasquitão, o que, pra mim, já era uma boa história pra contar (sabia que eu tava a 50 Km da fronteira com o Paquistao?). Mas aventura pouca e bobagem.

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Ja podiámos ver os raios que caiam no país vizinho e alguns pingos de chuva caiam espaçadamente enquanto conversamos em roda, tomando cerveja. A 10 metros da gente, os guias preparavam nosso jantar. Tudo tranquilo demais.

Jantar pronto (e delicioso, com direito a carne de cabra), a chuva começou a apertar. Entramos para uma espécie de oca. Aquela cena já era exótica o suficiente pra marcar a noite: noite escura, todos sentados comendo com as mãos, trocando ideia…Foi quando o vento forte resolveu levantar a areia e adeus, comida! De repente, naquela falação hindi+ingles entendemos que deveríamos sair correndo da oca: “Out! Out! Everybody Out!”

Por algum motivo, aqueles guias acharam que poderiam conter a força da tempestade que se aproximava, segurando os suportes de madeira da oca. Enquanto isso, no breu do deserto, a gente se procurava e se dava os braços, pra que ninguém se perdesse. A areia com aquela velocidade batia com força e machucava minhas pernas e braços e era quase impossível abrir os olhos.

Alguém nos conduziu pra frente de um arbusto, pra se proteger da chuva e da areia forte. Ficamos ali sentados, por cerca de 1h, talvez. Enquanto isso, o céu se revezava entre o breu total e a claridade dos relâmpagos que quase nos cegava, ao mesmo tempo que iluminava tudo por longos segundos.

Eu rezava para que acabasse e agradecia ao mesmo tempo. Era intenso demais. Muito mais do que podia esperar de Deus dessa minha viagem. E que viagem aquela noite!

Nossa "casinha" depois da tempestade

Nossa “casinha” depois da tempestade

Depois da tempestade, a calmaria…

O outro dia foi chill out total – o dia todo no hostel descansando, trocando ideia com os outros viajantes e tomando uma de leve. Nos dias seguintes, visitamos o Jaisalmer Fort, que em tempos medievais abrigava toda a população da cidade. Até hoje, milhares de pessoas moram por lá, fazendo dele o único forte residencial da Índia.

Dentro do forte, também visitamos os famosos templos jainistas (nos quais somos proibidos de entrar calçados ou com qualquer material de couro), muitas lojinhas e palácios.

Na nossa última noite em Jaisalmer, finalmente conseguimos dormir sob o céu – nem tão estrelado naquela noite – do deserto. Mais cervejinha, muita risada com nossos colegas de hostel e um amanhecer de paz incrível! Enfim, mais uma viagem única e inesquível! Gratidão!!!

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