1,77 milhões de anos depois

2014 d.C.: Arqueólogos encontram fóssil de um humano de milhões de anos que viveu até a velhice, possuindo apenas um dente, sobrevivendo pela compaixão de sua tribo. Na mesma semana, no Brasil, uma jornalista incentiva o linchamento de um individuo num meio de comunicação de massa.

Já parou pra pensar como a humanidade chegou até aqui sem remédios, geladeira, e até escova de dentes?

Sabe-se que, em tempos remotos a medicina era feita a base de plantas, a presa abatida era conservada no gelo ou com sal e sol, mas e a escova de dentes?

Se você tem todos os dentes na boca e mesmo com a gastronomia desenvolvida que temos hoje, ainda pena pra mastigar certos pedaços de bife que, nem sempre dá pra ser aquele macio que você queria, pois estava caro, imagine como era há milhões de anos atrás, quando não existia muito um conceito de higiene, que dirá bucal, e mesmo que palitassem os dentes com farpas ou mascassem determinadas folhas, não devia ser muito eficiente.

Por isto, era muita sorte se os proto-homens alcançassem certa idade com todos os dentes na boca, e continuassem a se alimentar de toda dieta necessária para manterem-se menos suscetíveis às doenças.

Um fato interessante veio à tona nesta semana que passou: foram encontrados esqueletos humanos de idade aproximada a 1,77 milhões de anos em Dmanisi, na Geórgia, que indicam que a empatia, a solidariedade e a colaboração são, de fato, qualidades humanas pré-históricas, que acompanham o homem desde os tempos mais remotos.

Os arqueólogos constataram ao analisarem as arcadas dentarias desses cadáveres, a descoberta do uso de palito de dentes já naquela época e entre outros fatos, que um dos quatro corpos encontrados é de uma pessoa que sobreviveu até tornar-se idosa, com apenas um dos dentes na boca – vale lembrar que até o século XIX a expectativa de vida estava na margem dos trinta e poucos anos. A longevidade atingida por este indivíduo só foi possível, segundo os arqueólogos, pois os outros integrantes do grupo, supostamente, pré-mastigavam o alimento para ser digerido por ele.

Este é um fato que impressiona se levarmos em consideração as condições egoístas que nos encontramos hoje. É contrastante que esta descoberta tenha vindo a público milhões de anos depois, na mesma semana em que uma jornalista brasileira, conhecida por suas opiniões questionáveis, se destaca ao incentivar publicamente o linchamento de “um irmão de espécie”.

Raquel Sherazade, a jornalista em questão, possivelmente, ganhou o nome inspirado na lendária rainha persa, conhecida pelos contos das 1001 noites.

Xerazade, a da lenda, escapou da execução imposta por seu marido, o rei Shariar, que casava todos os dias com uma noiva diferente e ordenava sua morte no dia seguinte ao raiar do sol, contando-lhe, a cada noite, histórias magnificas, de aventuras, dramas e romances dos reis antigos. Assim ela manteve o interesse de seu carrasco aceso e conseguiu adiar sua morte por 1001 noites e, ao final, conquistou sua clemência e seu amor.

A Sherazade atual tem algumas semelhanças com a da lenda. Ela também “conta histórias” todas as noites para um público muito maior. Seus objetivos não se mostram tão nobres como o da sua “chara” lendária que, por decisão própria, casou-se com o rei para realizar o plano de cessar com as execuções distraindo-o com suas histórias. Ao contrário da rainha, a jornalista conquistou a atenção de muitos e a admiração de parte do público que tem posições politicas, religiosas e sociais semelhantes às dela, expondo suas posições duras sobre questões sociais, inclusive incentivando execuções de outrem. Assim ela vai escapando, noite após noite da exoneração do cargo com “suas histórias polêmicas” que lhe garantem o ibope necessário para manter, também, a admiração do soberano, prioritário da emissora.

O que mais me espanta, além de vê-la disseminando massivamente conceitos contrários aos que fizeram o nosso “ancestral banguela” de 1,77 milhões de anos atrás sobreviver até uma idade avançada e que também nos fizeram prosperar como sociedade, é ver que ela defende que pessoas com condições muito melhores às do marginal que foi covardemente espancado e acorrentado a um poste, tomem atitudes não condizentes com o privilégio que tiveram, de serem mais esclarecidos.

Acredito que neste ponto, nós de classe média, temos maior responsabilidade quanto á perpetuação destes valores milenares na sociedade atual. Veja bem, se tivemos mais oportunidades, melhor educação dentro de casa e nas escolas, se conseguimos nos formar, evitar subempregos, ter boas profissões, deveríamos, no mínimo, tentar solucionar estes problemas de maneira mais razoável usando a inteligência dada a nós pelos nossos padrões sociais, ao invés de instantaneamente nos igualarmos em atitudes aos que não tem o mesmo conforto que nos garante a sensatez. Em minha opinião, tomarmos atitudes semelhantes às destes desfavorecidos extingue por completo a tão apontada diferença de posturas entre as classes.

Os que cometem delitos são criminosos e devem ser punidos de acordo com a lei, logicamente eu não discordo. Mas tomarmos a justiça por nossas próprias mãos com violência também faz de nós criminosos e nos caracteriza como uma “mega tribo” mais primitiva que a dos ancestrais encontrados pelos arqueólogos na semana passada.

Talvez o altruísmo esteja datado, ou talvez ele se expresse mais forte somente em fases primárias, como em nossa adolescência. Fase em que muitos de nós temos o desejo insaciável de acabar com as mazelas do mundo. Eu mesmo fui assim. Aos 18 anos cheguei a me inscrever no Projeto Rondon, mas não fui selecionado, e hoje confesso que perdi bastante o ímpeto revolucionário e faço muito menos do que deveria para somar à nossa sociedade. Ainda assim não me nego a ajudar quem está ao meu alcance, nem a ninguém que me recorra. Também preservo algumas atitudes simples como não jogar lixo no chão, não deixar a torneira aberta, nem as luzes acesas, e não incentivar a execução de um criminoso desarmado. Não é suficiente, reconheço. Mas se o altruísmo é mesmo um sentimento de fases primárias, que diminui de intensidade no percorrer da nossa vida/história, é inegável que na fase final todos o encontremos novamente, ainda que por obrigação de assinar documentos, deixando todas as nossas “conquistas materiais” para os nossos sucessores.

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