O Paralello fica ao lado

Em meio aos coqueiros, sobre as areias quentes, com um visual de pintura, de frente para o mar da Bahia

Uma das regras básicas que fazem o mundo girar é a renovação. Uma geração não é igual a anterior, que por sua vez não é como a que a antecede. As convergências existem, muitas coisas são reaproveitadas e reinventadas, afinal vemos todos os dias como Lavoisier foi assertivo em afirmar que “nada se cria, tudo se transforma”.

Nós, filhos de pais que eram jovens nos anos 60 e 70, ou que nasceram nessa época, já entrando num mundo que testemunhava a era da “expansão da consciência” do séc. XX, temos o privilégio de não precisar conviver com certos paradigmas que eles bravamente quebraram para nós. E com isso nos sentimos muito mais à vontade para expressarmos todas as peculiaridades que permeiam nossa personalidade, diferentemente de nossos pais quando aqui chegaram. No mundo em que nascemos, as pessoas tem cabelos rosa choque e não são rock stars, tem piercings e não são piratas, tem tatuagens e não são ex-detentos e nós temos muito que lhes agradecer.

As expressões culturais das gerações que nos antecedem não se extinguiram, muitas permanecem e algumas adquiriram roupagens renovadas de acordo com as novas capacidades de nossos apetrechos, que incorporaram novas tecnologias, e as possibilidades dos novos instrumentos de produção artística. Novo, novo, novo – nem tanto, diria Lavoisier.

No caso, aqui, quero abordar uma expressão específica da cultura contemporânea. Uma que acontece em solo nacional há mais de 10 anos, no litoral baiano, durante as passagens de ano, pautado principalmente nas vertentes psicodélicas da música eletrônica: o Universo Paralello.

A partir de 26 de dezembro de quase todos os anos desde 2000, por volta de 15.000 pessoas (jovens, velhos, crianças com seus pais) no mundo inteiro começam a se deslocar em direção a Pratigi. Uma praia paradisíaca no litoral da Bahia que, durante sete dias, se torna uma imensa comunidade cosmopolita, com pessoas e suas bizarrices dos mais variados tipos, que surrealmente passam despercebidas por causa do clima de aceitação agradavelmente imposto pelo contexto do evento. Lá, se está em um ambiente que todos são solícitos. Não será incomum ver as pessoas emprestando para o desconhecido ao lado cadeiras de praia, oferecendo sua bebida, ou alimento para o vizinho do camping. Os nudistas escapam de olhares capciosos e a sombra é dividida por todos, mesmo que o guarda sol não seja seu.

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Nós vamos sós ou acompanhados, de excursão ou carona, de carro, de ônibus, avião, não importa. Quando nos encontramos na estrada de chão, nos portões do festival, todos temos de encarar o “pau de arara”. Este, se desloca 4 km adentro de uma fazenda de coqueiros onde se situam as 5 pistas e os campings – os quais, em questão de horas, se formam vastos como uma cidade pop-up que surge nas areias desse planeta à parte, completamente desolado até então.

A cerca de 40 km de Ituberá, a cidadezinha mais próxima. Numa área de 2 km de areia, mar e coqueiros, são instaladas as cinco pistas de dança em que são distribuídas as vertentes da e-music, com as decorações e performances artísticas mais magníficas. Ambientes completamente diferentes, com temas indígenas, tropicais ou futuristas, e muita psicodelia estampada em panos, esculturas, estruturas, com detalhes que vão de reciclados com tração eólica a lasers que atravessam a imensidão do mar à noite.

Claro, existe o mito das drogas, que não é tão mito assim. Na verdade, elas existem, mas o mito está no exagero como as pessoas imaginam que acontece. São sete dias de festa, não adianta, para quem não conhece, tirar por base as raves de um dia ou 12h de duração que acontecem nos centros urbanos. Estas são de fácil acesso a qualquer aventureiro desinformado e até menores de idade, que queiram apenas experimentar um alucinógeno num ambiente que “a onda” não cause estranheza aos que os cercam, ou extravasar numa noitada só, toda aquela ânsia por “foda-se” reprimida ao longo do mês de labuta. Se a pessoa fizer lá, durante os quatro últimos dias do ano, o que faz em uma rave de um dia – podes crer meu amigo – não vira ano com os demais. A situação lá se assemelha mais a uma viagem entre amigos que alugam uma casa no carnaval e diluem em 4 dias a diversão para não ir parar no hospital logo nos primeiros dias. Fato inclusive, que se aplica até melhor lá, pois no carnaval muitos realmente perdem a noção dos seus limites. Os dados estão aí pra provar. Em 12 anos de Universo Paralello não houve meia dúzia de baixas, a maioria por desidratação. Enquanto no carnaval, acho que não preciso comparar. Até porque, o ponto aqui não é este. Não é atacar outra forma de expressão cultural. Nós sabemos muito bem como é ser as vítimas. As regras pro nosso movimento ser legítimado são muito duras em consequência do preconceito dos que não conhecem nem simpatizam.

As Pistas

São 5 pistas distribuídas em 2 km de evento a beira-mar. Vertentes da e-music como: Full On; Groove; Prog; Goa; Dark; Electro; Techno; House e muitas outras que encheriam mais duas linhas, podem ser encontradas nas pistas, geralmente alocadas de acordo com a quantidade de batidas por minuto (bpm) que possuem.

Abaixo, proponho um passeio por elas. Para isto, selecionei alguns vídeos de anos diferentes – não precisam assisti-los por inteiro, alguns são muito longos, é apenas pra passar uma idéia – para você que tem curiosidade ou vontade de se aventurar por lá num réveillon desses, onde será muito bem aceito por todos.

Main Stage:

“É o coração do Universo Paralello (…) preparado para acolher, com ampla sombra e sistema aéreo de hidratação, o grande público, em todos os momentos.”

http://www.youtube.com/watch?v=OvQ8AtzxgF0

http://www.youtube.com/watch?v=7vB4nCihKcc

303 Stage (Pista Goa):

Predominam os sons mais rústicos, mais fiéis às raízes do trance psicodélico, originado da ilha de Goa, na Índia.

http://www.youtube.com/watch?v=Gk9oeShBttM (2008)

http://www.youtube.com/watch?v=Kj5YQwibNRo

UP Club (Pista Alternativa):

“Uma pista a céu aberto em um grande club à beira mar (…) o melhor da house music e suas vertentes.”

http://www.youtube.com/watch?v=6Pt3E9JRLf4

http://www.youtube.com/watch?v=gE46y9h8ztw

Palco Paralello:

“A proposta é um grande mix de estilos, culturas e formas de expressar a música. Desde 2006 inserido no festival, vem ganhando cada vez mais consistência com a participações importantes de artistas. Em edições anteriores, já se apresentaram artistas como: Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Guizado, Pedra Branca, Vivendo do Ócio, BNegão, Cabruera, ChicoCorrea, Ventania…”

http://vimeo.com/36431659

ChillOut:

“Um lugar para recarregar as energias e mudar a frequência das batidas sonoras. A sintonia fina do Festival que nesta edição ganha novamente lugar exclusivo para que a atmosfera quase medicinal criada neste espaço não tenha intervalos.”

http://www.youtube.com/watch?v=pH0HYrGNB5E

http://www.youtube.com/watch?v=Ri5SJHNITRY

Site oficial do evento:

http://www.universoparalello.org

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