Não desanimeis, animais

Animais vem sendo sacrificados largamente desde nosso surgimento para nossa nutrição e sobrevivência. Mas, em breve, isso pode não ser necessário.

Se você faz parte do grupo de pessoas que diz preferir animais (irracionais) aos seres humanos, saiba primeiramente que entendo sua revolta. Não posso afirmar que penso o mesmo, mas valorizo quase qualquer forma de vida, exceto pernilongos – estes não servem pra nada além de tirar nossa paz com zumbidos, picadas e doenças – talvez você não saiba que o tutano, escrito na embalagem do seu shampoo favorito; o ácido esteárico usado para conservar a forma do pneu de bicicleta sob atrito; a cola de madeira que sela o violão, podem ser originados de tecidos animais. O mais provável é que você desconheça estas informações, portanto não se culpe severamente.

O uso mais polêmico, acredito, pela crueldade mais evidente, é o consumo alimentício de animais. Se você parar pra pensar, um bife nada mais é que um pedaço de cadáver de um ser que, em vida, pode inclusive ter ingerido outros cadáveres indiretamente – em rações feitas de misturas moleculares, nas quais nutrientes que provêm exclusivamente do tecido animal são usados, sem que, necessariamente, um ser tenha sido sacrificado para isto. Então, espera. Se eles podem consumir outros bichos sem que esses percam a vida, por que nós também não podemos? De fato, nós já utilizamos fórmulas semelhantes em nossa gastronomia.

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Você deve ter ouvido falar na tal “cozinha molecular” anteriormente num programa de TV a cabo e, recentemente, até na Ana Maria Braga. Esta “modalidade gastronômica” está ganhando mais destaque a cada dia pelas propostas inusitadas de experiências com as refeições.

Além das características de verdadeiros experimentos de laboratório, é oferecida uma experiência sensorial que envolve os aromas, as texturas e as sensações que os cheffs procuram proporcionar na apresentação dos pratos. O mais interessante acontece por debaixo da fumaça de nitrogênio liquido que encobre, por exemplo, um desconhecido Frango Garam Masala Molecular. Um frango desconstruído a nível molecular e reconstruído com a textura de um patê, então grelhado e servido com leite de côco e garam masala indiano. Contudo, o exemplo da gastronomia molecular é apenas um passo na direção da alimentação carnívora, não predatória.

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Não desmerecendo o glamour da composição harmônica elaborada pelo cheff, esqueçamos os condimentos, a apresentação e vejamos que esta nova forma física dada ao frango pode ter funções além da de impressionar um paladar ávido por novidades. Como, por exemplo, a função de tornar mais prático de se transportar. Algo que foi percebido antes e já vinha sendo feito em casos como os de astronautas. Esses, por limitações logísticas e tecnológicas não podiam, até pouco tempo, comer uma suculenta coxa de chester a bordo de uma estação espacial e tinham que se alimentar com pastas e pós nutritivos para se manterem saudáveis a milhões de quilômetros do galinheiro mais próximo.

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E esse não é o caso mais comum da aplicação de gastronomia molecular no nosso dia a dia. A indústria de alimentos processados e congelados precisam, por lei, utilizar determinados aditivos químicos em seus produtos, que modificam moléculas para torná-los mais estáveis e atraentes, além de prolongar a vida de prateleira.

Até o tão apreciado salmão, conhecido por ter uma constituição saudável, só adquire a aparência rosada por se alimentar de crustáceos dos rios do hemisfério norte. O salmão de cativeiro que chega até você de uma fazenda de peixes no Chile, é colorido artificialmente através de componentes químicos misturados na ração.

O ponto é que, em benefício dos animais, o que é feito com o pedaço de Frango Garam Masala, do exemplo, que foi reconstruído a partir de suas moléculas, e com o recente avanço das pesquisas com células tronco de animais, agora até as moléculas da carne podem ser construídas “do zero”, utilizando esse conhecimento. O que não envolveria a morte de nossos tão queridos bichinhos, mas a extração não agressiva, nem fatal e assim, inteiramente moral, das células da coluna do animal, que origina os ingredientes necessários para uma receita na qual as misturas acontecem microscopicamente, produzindo o mesmo pedaço de carne animal que estamos acostumados a comer nos dias de hoje.

Cientistas holandeses tem sido os pioneiros no desenvolvimento da carne sintética e americanos também participam desta corrida. E com Sergey Brin (co-fundador da Google), Peter Thiel (co-fundador do Pay-Pal) e até Bill Gates (Microsoft), como alguns dos investidores mais expressivos e ativos das pesquisas, estas parecem já começar a apontar a linha de chegada, não tão longe.

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Portanto, se a consolidação de nossa raça neste planeta se deu através da caça, antes mesmo da agricultura, e permaneceu após seu invento, durante milhares de anos de impiedade com outros seres que nos serviram de alimento, com a prerrogativa de que eram necessários para a nossa sobrevivência. Esse mesmo tempo de evolução serviu para nos trazer a uma condição tecnológica e, timidamente, até espiritual, em que somos capazes de abolir esse tipo de prática contra os outros navegantes desta esfera espacial que chamamos de casa. E, assim, assumir sem hipocrisia a responsabilidade do status de animais racionais e seres dominantes da Terra.

Se após a conclusão das pesquisas, supondo que sejam bem sucedidas, o que lhe incomodar for: não encontrar mais bifes assimétricos, pense que se você fosse surpreendido por um bife convencional cortado como um quadrado em um restaurante chique, você no máximo acharia aquilo “requintado demais”. E se o mesmo fosse um bife sintético, livre de morte e sofrimento animal, que você consumisse sem esse conhecimento, você não conseguiria de prontidão identificar a diferença. Bem, pelo menos de acordo com as pesquisas que fiz para escrever este texto, é nesse ponto que os cientistas pretendem chegar.

Fontes:

http://jaieqm.blogspot.com.br/2011/11/carne-mais-vermelha-no-acougue.html

http://www.slideshare.net/MarkinhusSuns/a-qumica-dos-alimentos-7802328

http://super.abril.com.br/blogs/planeta/9-produtos-que-contem-ingredientes-animais-em-sua-formula-e-voce-nem-sabia/

http://engalimentos.com.br/post/2006/05/17/aditivos_quimicos_sinteticos.aspx

http://www.tecmundo.com.br/personalidades/42926-bill-gates-e-peter-thiel-tambem-estao-investindo-em-carne-sintetica.htm

http://www.howstuffworks.com/astronauts-eat-in-space.htm

http://www.gastronomylab.com/

http://www.carlomockli.com/2012/10/gastronomia-molecular-para-que-serve.html

http://g1.globo.com/economia/pme/noticia/2011/12/gastronomia-molecular-combina-ciencia-e-alimentos.html

http://www.tecmundo.com.br/futuro/10796-tecnologias-promissoras-comida-artificial.htm

http://super.abril.com.br/cotidiano/25-coisas-estao-escondendo-voce-717510.shtml

http://www.pocotapas.com.br/?page_id=188
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